Crede em Seus Profetas

Leitura semanal do Espírito de Profecia

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Capítulo 26 — Em Cafarnaum

Jesus parava em Cafarnaum entre Suas viagens de um lugar para outro, e ela chegou a ser conhecida por “Sua cidade”. Ficava na praia do Mar da Galiléia, e próximo às bordas da bela planície de Genesaré, se não realmente nela.

A profunda depressão do lago dá à planície que lhe margeia as praias o aprazível clima do Sul. Ali floresciam, nos dias de Cristo, a palmeira e a oliveira, ali havia pomares e vinhas, campos verdejantes e belas flores em rica exuberância, tudo regado por correntes vivas, que brotavam das rochas. As praias do lago, e as colinas que as circundavam a pequena distância, achavam-se pontilhadas de cidades e vilas. O lago era coberto de barcos de pesca. Havia por toda parte a agitação da vida em sua atividade e realizações.

Cafarnaum adaptava-se bem a servir de centro à obra do Salvador. Achando-se na estrada de Damasco a Jerusalém e ao Egito, e ao Mar Mediterrâneo, era uma grande via de comunicação. Gente de muitas terras passava pela cidade, ou ali parava para descansar em seu jornadear para lá e para cá. Aqui podia Jesus encontrar-Se com todas as nações e todas as classes, o rico e o grande, como o pobre e o humilde, e Suas lições seriam levadas a outros países e a muitos lares. Estimular-se-ia assim o exame das profecias, seria atraída a atenção para o Salvador, e Sua missão apresentada ao mundo.

Não obstante a ação do Sinédrio contra Jesus, o povo aguardava ansiosamente o desenvolvimento de Sua missão. Todo o Céu estava palpitante de interesse. Anjos Lhe preparavam caminho ao ministério, movendo o coração dos homens e atraindo-os ao Salvador.

O filho do nobre, a quem Jesus curara, era em Cafarnaum uma testemunha de Seu poder. E o oficial da corte e sua casa testificavam alegremente de sua fé. Ao saber-se que o próprio Mestre Se achava entre eles, toda a cidade se agitou. Multidões eram atraídas à Sua presença. No sábado o povo afluía à sinagoga de tal maneira que grande número tinha de voltar, por não conseguir entrada.

Todos quantos ouviam o Salvador “admiravam a Sua doutrina, porque a Sua palavra era com autoridade”. Lucas 4:32. Ensinava-os “como tendo autoridade; e não como os escribas”. Mateus 7:29. Os ensinos dos escribas e anciãos eram frios e formais, como uma lição aprendida de cor. Para eles, a Palavra de Deus não possuía nenhum poder vital. Seus ensinos eram substituídos pelas idéias e tradições deles próprios. Na costumada rotina do culto, professavam explicar a lei, mas nenhuma inspiração de Deus lhes comovia o coração ou de seus ouvintes.

Jesus nada tinha que ver com as várias dissensões existentes entre os judeus. Sua obra era apresentar a verdade. Suas palavras derramavam uma torrente de luz sobre os ensinos dos patriarcas e profetas, e as Escrituras chegavam aos homens como uma nova revelação. Nunca antes haviam Seus ouvintes percebido tal profundeza de sentido na Palavra de Deus.

Jesus abordava o povo no mesmo terreno em que se encontrava, como alguém que lhes conhecia de perto as perplexidades. Tornava bela a verdade, apresentando-a da maneira mais positiva e simples. Sua linguagem era pura, refinada e clara como a água de uma fonte. A voz era como música aos ouvidos que haviam escutado o monótono tom dos rabis. Mas se bem que fosse simples o ensino, falava como alguém que tem autoridade. Essa característica punha Seu ensino em contraste com o de todos os outros. Os rabis falavam duvidosos e hesitantes, como se as Escrituras pudessem ser interpretadas significando uma coisa ou exatamente o contrário. Os ouvintes eram diariamente possuídos de uma incerteza cada vez maior. Mas Jesus ensinava as Escrituras como de indubitável autoridade. Fosse qual fosse o assunto, era apresentado com poder, como se Suas Palavras não pudessem sofrer contestação.

Todavia, era mais fervoroso do que veemente. Falava como alguém que tem definido propósito a cumprir. Estava apresentando as realidades do mundo eterno. Em todos os temas, Deus era revelado. Jesus procurava quebrar o encantamento da cega preocupação que mantém os homens absorvidos com o terrestre, colocava as coisas desta vida em sua verdadeira relação, como subordinadas às de interesse eterno; não lhes passava, contudo, por alto a importância. Ensinava que o Céu e a Terra se achavam ligados, e que o conhecimento da divina verdade prepara melhor os homens para o cumprimento dos deveres da vida diária. Falava como uma pessoa familiarizada com o Céu, cônscia de Suas relações com Deus, e todavia reconhecendo Sua unidade com cada membro da família humana.

Suas mensagens de misericórdia variavam, a fim de ajustar-se ao Seu auditório. Sabia “dizer a seu tempo uma boa palavra ao que está cansado” (Isaías 50:4); pois nos lábios Lhe era derramada a graça, a fim de que transmitisse aos homens, pela mais atrativa maneira, os tesouros da verdade. Possuía tato para Se aproximar do espírito mais cheio de preconceitos, surpreendendo-o com ilustrações que lhe prendiam a atenção. Por intermédio da imaginação, chegava-lhes à mente. Suas ilustrações eram tiradas das coisas da vida diária, e, conquanto simples, encerravam admirável profundeza de sentido. As aves do céu, os lírios do campo, a semente, o pastor e as ovelhas — com essas coisas ilustrava Cristo a verdade imortal; e sempre, posteriormente, quando Seus ouvintes viam essas coisas da natureza, elas Lhe evocavam as palavras. As ilustrações de Cristo repetiam-Lhe continuamente as lições.

Cristo nunca lisonjeava os homens. Não dizia o que lhes fosse exaltar as fantasias e imaginações, nem os louvava pelas invenções inteligentes; mas pensadores profundos, livres de preconceito, recebiam-Lhe os ensinos, e verificavam que estes lhes punham à prova a sabedoria. Maravilhavam-se ante a verdade espiritual expressa na mais simples linguagem. Os mais altamente instruídos ficavam encantados com Suas palavras, e os incultos tiravam sempre delas benefício. Tinha uma mensagem para os iletrados; e levava os próprios gentios a compreender que tinha para eles uma mensagem.

Sua terna compaixão caía como um toque de saúde nos corações cansados e aflitos. Mesmo entre a turbulência de inimigos furiosos, era circundado por uma atmosfera de paz. A beleza de Seu semblante, a amabilidade de Seu caráter e, sobretudo, o amor expresso no olhar e na voz, atraíam para Ele todos quantos não estavam endurecidos na incredulidade. Não fora o espírito suave, cheio de simpatia, refletindo-se em cada olhar e palavra, e Ele não teria atraído as grandes congregações que atraiu. Os aflitos que iam ter com Ele, sentiam que ligava com os próprios, o interesse deles, como um terno e fiel amigo, e desejavam conhecer mais das verdades que ensinava. O Céu era trazido perto. Anelavam permanecer diante dEle, para terem sempre consigo o conforto de Sua presença.

Jesus observava com profundo interesse as mutações na fisionomia dos ouvintes. Os rostos que exprimiam interesse e prazer, davam-Lhe grande satisfação. Ao penetrarem as setas da verdade na mente, rompendo as barreiras do egoísmo, e operando a contrição e finalmente o reconhecimento, o Salvador alegrava-Se. Quando Seus olhos percorriam a multidão dos ouvintes, e reconhecia entre eles os rostos que já vira anteriormente, Seu semblante iluminava-se de alegria. Via neles candidatos, em perspectiva, a súditos do Seu reino. Quando a verdade, dita com clareza, tocava algum acariciado ídolo, observava a mudança de fisionomia, o olhar frio, de repulsa, que mostrava não ser a luz bem-recebida. Quando via homens recusarem a mensagem de paz, isso Lhe traspassava o coração.

Falava Jesus na sinagoga acerca do reino que viera estabelecer, e de Sua missão de libertar os cativos de Satanás. Foi interrompido por um agudo grito de terror. Um louco precipitou-se dentre o povo para a frente, exclamando: “Ah! que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste a destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus”. Lucas 4:34.

Tudo era agora confusão e alarme. A atenção do povo se desviou de Cristo, e Suas palavras não foram escutadas. Tal era o desígnio de Satanás em levar a vítima à sinagoga. Mas Jesus repreendeu o demônio, dizendo: “Cala-te, e sai dele. E o demônio, lançando-o por terra no meio do povo, saiu dele sem lhe fazer mal”. Lucas 4:35.

A mente desse mísero sofredor fora entenebrecida por Satanás, mas, em presença do Salvador, um raio de luz lhe penetrara as trevas. Foi despertado, e ansiou a libertação do domínio do maligno; mas o demônio resistia ao poder de Cristo. Quando o homem tentou apelar para Cristo em busca de auxílio, o espírito mau pôs-lhe nos lábios as palavras, e ele gritou em angústia de temor. O possesso compreendia em parte achar-se em presença de Alguém que o podia libertar; mas, ao tentar chegar ao alcance daquela poderosa mão, outra vontade o segurou; outras palavras encontraram expressão por meio dele. Terrível era o conflito entre o poder de Satanás e seu próprio desejo de libertação.

Aquele que vencera Satanás no deserto da tentação, foi novamente colocado face a face com Seu adversário. O demônio exercia todo o poder para reter o domínio sobre a vítima. Perder terreno aqui, seria dar a Jesus uma vitória. Dir-se-ia que o torturado homem devesse perder a vida na luta com o inimigo que fora a ruína de seu vigor varonil. Mas o Salvador falou com autoridade, e libertou o cativo. O homem que estivera possesso ali se achava perante o povo admirado, feliz na liberdade da posse de si mesmo. O próprio demônio testificara do poder do Salvador.

O homem louvou a Deus por seu livramento. Os olhos que havia pouco tanto tinham chispado sob a chama da loucura, brilhavam agora de inteligência, e inundavam-se de lágrimas de gratidão. O povo estava mudo de espanto. Assim que recobraram a fala, exclamavam uns para os outros: “Que palavra é esta? que nova doutrina é esta? pois com autoridade ordena aos espíritos imundos, e eles Lhe obedecem!” Marcos 1:27.

A causa oculta da aflição que tornara esse homem um terrível espetáculo a seus amigos e um fardo para si mesmo, achava-se em sua própria vida. Fora fascinado pelos prazeres do pecado, e pensara fazer da própria vida um grande carnaval. Não sonhava em se tornar um terror para o mundo, e uma vergonha para a família. Julgou poder gastar o tempo em extravagâncias inocentes. Uma vez no declive, porém, resvalou rapidamente. A intemperança e a frivolidade perverteram-lhe os nobres atributos da natureza, e Satanás tomou sobre ele inteiro domínio.

Demasiado tarde veio o remorso. Quando quis sacrificar fortuna e prazer para readquirir a perdida varonilidade, tornara-se incapaz nas garras do maligno. Colocara-se no terreno do inimigo, e Satanás tomara posse de todas as suas faculdades. O tentador o seduzira com muitas representações encantadoras; uma vez que o desgraçado se achava em seu poder, no entanto, tornara-se infatigável em sua crueldade, e terrível em suas iradas visitações. Assim será com todos quantos condescendem com o mal; o fascinante prazer do princípio de sua carreira termina nas trevas do desespero ou na loucura de uma mente arruinada.

O mesmo espírito mau que tentara a Cristo no deserto e, possuía o louco de Cafarnaum, dominava os incrédulos judeus. Para com eles, porém, assumia ar de piedade, buscando enganá-los quanto aos motivos que tinham em rejeitar o Salvador. Sua condição era mais desesperadora que a do endemoninhado; pois não sentiam necessidade de Cristo, sendo assim mantidos seguros sob o poder de Satanás.

O período do ministério pessoal de Cristo entre os homens foi o tempo de maior atividade das forças do reino das trevas. Durante séculos, Satanás e seus anjos haviam estado procurando controlar o corpo e a mente dos homens, para trazer sobre eles pecados e sofrimentos; depois, acusara a Deus de toda essa miséria. Jesus estava revelando aos homens o caráter de Deus. Estava a despedaçar o poder de Satanás, libertando-lhe os cativos. Nova vida e amor do Céu moviam o coração dos homens, e o príncipe do mal despertou para contender pela supremacia de seu reino. Satanás convocou todas as suas forças, e a cada passo combatia a obra de Cristo.

Assim será na grande batalha final do conflito entre a justiça e o pecado. Ao passo que nova vida e luz e poder descem do alto sobre os discípulos de Cristo, uma vida nova está brotando de baixo, e revigorando os instrumentos de Satanás. A intensidade se está apoderando de todo elemento terrestre. Com uma sutileza adquirida através de séculos de conflito, o príncipe do mal opera disfarçadamente. Aparece vestido como anjo de luz, e multidões estão “dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios”. 1 Timóteo 4:1.

Nos dias de Cristo os guias e mestres de Israel eram impotentes para resistir a Satanás. Negligenciavam o único meio pelo qual se podiam opor aos maus espíritos. Foi pela Palavra de Deus que Cristo venceu o maligno. Os guias de Israel professavam ser expositores da Palavra de Deus, mas haviam-na estudado apenas para apoiar suas tradições, e impor suas observâncias de origem humana. Haviam, por suas interpretações, feito com que ela exprimisse sentimentos que Deus nunca tivera em mente. Suas místicas apresentações tornavam indistinto aquilo que Ele fizera claro. Disputavam sobre insignificantes questões de técnica, e negavam por assim dizer as verdades essenciais. Assim, difundia-se amplamente a infidelidade. Roubavam à Palavra de Deus a sua força, e os espíritos maus operavam à vontade.

A história se está repetindo. Tendo a Bíblia aberta diante de si, e professando respeitar-lhe os ensinos, muitos dos guias religiosos de nossa época estão destruindo a fé nela como Palavra de Deus. Ocupam-se em dissecar a Palavra, e estabelecer as próprias opiniões acima de suas declarações positivas. A Palavra de Deus perde, em suas mãos, o poder regenerador. É por isso que a incredulidade campeia, e reina a iniqüidade.

Depois de minar a fé na Bíblia, Satanás encaminha os homens a outras fontes em busca de luz e poder. Assim se insinua ele. Os que se desviam dos claros ensinos da Escritura, e do poder convincente do Espírito Santo de Deus, estão convidando o domínio dos demônios. A crítica e as especulações concernentes às Escrituras, têm aberto o caminho ao espiritismo e à teosofia — essas formas modernas do antigo paganismo — para conseguir firmar-se mesmo nas professas igrejas de nosso Senhor Jesus Cristo.

Lado a lado com a pregação do evangelho, acham-se a operar forças que não são senão médiuns de espíritos de mentira. Muito homem se intromete com elas por mera curiosidade, mas vendo demonstrações de forças sobre-humanas, é fascinado a ir sempre mais adiante, até que fica dominado por uma vontade mais forte que a sua própria. Não lhe pode escapar ao misterioso poder.

São derrubadas as defesas da mente. Não tem barreira contra o pecado. Uma vez que as restrições da Palavra de Deus e de Seu Espírito são rejeitadas, homem algum pode saber a que profundezas de degradação é capaz de imergir. Um pecado secreto ou paixão dominadora o pode reter cativo tão impotente como era o endemoninhado de Cafarnaum. Todavia, seu estado não é desesperador.

O meio por que podemos vencer o maligno, é aquele pelo qual Cristo venceu — o poder da Palavra. Deus não nos rege a mente sem nosso consentimento; mas se desejamos conhecer e fazer Sua vontade, pertence-nos a promessa: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. João 8:32. “Se alguém quiser fazer a vontade dEle, conhecerá a respeito da doutrina”. João 7:17. Mediante a fé nessas promessas, todo homem poderá ser libertado dos ardis do erro e do domínio do pecado.

Todo homem é livre para escolher que poder o regerá. Ninguém caiu tão fundo, ninguém é tão vil, que não possa encontrar libertação em Cristo. O endemoninhado, em lugar de uma oração, só pôde proferir as palavras de Satanás; todavia, foi ouvido o mudo apelo do coração. Nenhum grito de uma pessoa em necessidade, embora deixe de ser expresso em palavras, ficará desatendido. Os que consentirem em entrar com o Deus do Céu num concerto, não serão deixados entregues ao poder de Satanás, ou às fraquezas de sua própria natureza. São convidados pelo Salvador: “Que se apodere da Minha força, e faça paz comigo; sim, que faça paz comigo”. Isaías 27:5. Os espíritos das trevas hão de combater pela pessoa que uma vez lhes caiu sob o domínio, mas anjos de Deus hão de contender por aqueles com predominante poder. Diz o Senhor: “Tirar-se-ia a presa ao valente? Ou escapariam os legalmente presos? [...] Assim diz o Senhor: Por certo que os presos se tirarão ao valente, e a presa do tirano escapará; porque Eu contenderei com os que contendem contigo, e os teus filhos Eu remirei”. Isaías 49:24, 25.

Enquanto todos na sinagoga ainda se achavam sob o domínio do espanto, Jesus retirou-Se para a casa de Pedro, a fim de repousar um pouco. Mas também ali baixara uma sombra. A mãe da esposa de Pedro jazia enferma, presa de “muita febre”. Jesus repreendeu a moléstia, e a doente ergueu-se, e atendeu às necessidades do Mestre e dos discípulos.

Por toda Cafarnaum, logo se espalharam as novas da obra de Cristo. O povo, por temor dos rabis, não ousou ir em busca de cura durante o sábado; mas assim que o Sol se ocultou no horizonte, notou-se grande agitação. Das casas de famílias, das lojas, das praças, afluíam os habitantes para a humilde morada em que Jesus Se abrigara. Os enfermos eram levados em leitos, ou apoiados em bordões, ou ajudados por amigos arrastavam-se debilmente à presença do Salvador.

Durante horas a fio vinham e voltavam; pois ninguém sabia se o dia seguinte ainda encontraria o Médico entre eles. Nunca antes fora Cafarnaum espetáculo de um dia como esse. O espaço enchia-se de vozes de triunfo e aclamações pela libertação. O Salvador regozijava-Se no regozijo que produzira. Ao testemunhar os sofrimentos dos que tinham ido ter com Ele, o coração movera-se-Lhe de simpatia e alegrou-Se em Seu poder de restaurá-los à saúde e felicidade.

Enquanto o último enfermo não foi curado, Jesus não cessou de trabalhar. Ia alta a noite quando a multidão partiu e o silêncio baixou sobre o lar de Simão. Passara o longo dia, cheio de atividades, e Jesus procurou repouso. Mas, estando a cidade ainda imersa no sono, o Salvador “levantando-Se alta madrugada, saiu, e foi para um lugar deserto, e ali orava”.

Assim se passavam os dias na vida terrestre de Jesus. Muitas vezes despedia os discípulos, a fim de visitarem o lar e repousar; mas resistia-lhes brandamente aos esforços para O afastar de Seus labores. O dia todo labutava Ele, ensinando o ignorante, curando o enfermo, dando vista ao cego, alimentando a multidão; e na vigília da noite, ou cedo de manhã, saía para o santuário das montanhas, em busca de comunhão com Seu Pai. Passava por vezes a noite inteira a orar e meditar, voltando ao raiar do dia ao Seu trabalho entre o povo.

De manhã cedo, Pedro e os companheiros foram ter com Jesus, dizendo que já o povo de Cafarnaum O procurava. Os discípulos tinham ficado amargamente decepcionados com a recepção que Cristo tivera até então. As autoridades de Jerusalém O estavam buscando matar; Seus próprios concidadãos Lhe tinham tentado tirar a vida; mas em Cafarnaum era Ele recebido com jubiloso entusiasmo, e as esperanças dos discípulos se reanimaram. Talvez que, entre os galileus amantes de liberdade, se houvessem de achar os sustentáculos do novo reino. Com surpresa, porém, ouviram as Palavras de Cristo: “É necessário que Eu anuncie a outras cidades o evangelho do reino de Deus; porque para isso fui enviado.” Na agitação que então dominava em Cafarnaum, havia perigo de que se perdesse de vista o objetivo de Sua missão. Jesus não ficava satisfeito de chamar a atenção meramente como operador de maravilhas ou médico de enfermidades físicas. Buscava atrair os homens a Si como seu Salvador. Ao passo que o povo estava ansioso de crer que Ele viera como rei, para estabelecer um reino terrestre, Jesus desejava desviar-lhes o espírito do terreno para o espiritual. O simples êxito mundano estorvaria Sua obra.

E a admiração da descuidosa turba desagradava-Lhe ao espírito. Em Sua vida não cabia nenhum amor-próprio. A homenagem que o mundo presta à posição, à riqueza, ou ao talento, era coisa estranha ao Filho do homem. Nenhum dos processos empregados pelos homens para conseguir a obediência ou impor respeito, era usado por Jesus. Séculos antes de Seu nascimento, fora dEle profetizado: “Não clamará, não Se exaltará, nem fará ouvir a Sua voz na praça. A cana trilhada não quebrará, nem apagará o pavio que fumega; em verdade produzirá o juízo; não faltará nem será quebrantado, até que ponha na Terra o juízo”. Isaías 42:2-4.

Os fariseus procuravam distinção mediante seu escrupuloso cerimonialismo, e a ostentação de seu culto e caridades. Mostravam zelo pela religião, fazendo dela o tema de discussões. Em voz alta e longas eram as disputas entre as seitas opostas, e não era coisa incomum ouvirem-se na rua vozes de zangadas contendas da parte de instruídos doutores da lei.

Assinalado contraste com tudo isso oferecia a vida de Jesus. Nela, nenhuma ruidosa discussão, nenhuma ostentação de culto, nenhum ato visando a aplausos foi jamais testemunhado. Cristo estava escondido em Deus, e Deus era revelado no caráter de Seu Filho. Era a essa revelação que Jesus desejava fosse dirigido o espírito do povo, e rendidas suas homenagens.

O Sol da Justiça não rompeu sobre o mundo em esplendor, para deslumbrar os sentidos com Sua glória. Está escrito a respeito de Cristo: “Como a alva será a Sua saída”. Oséias 6:3. Calma e suavemente surge o dia na Terra, dissipando as sombras das trevas, e despertando o mundo para a vida. Assim Se ergueu o Sol da Justiça “com a cura nas Suas asas” (Malaquias 4:2 (TT).


Capítulo 27 — “Podes tornar-me limpo”

Este capítulo é baseado em Mateus 8:2-4; 9:1-8, 32-34; Marcos 1:40-45; 2:1-12; Lucas 5:12-28.

De todas as doenças conhecidas no Oriente, era a lepra a mais temida. Seu caráter incurável e contagioso, o terrível efeito sobre as vítimas, enchiam de temor os mais valorosos. Entre os judeus, era considerada um juízo sobre o pecado, sendo por isso chamada: “o açoite”, “o dedo de Deus”. Profundamente arraigada, mortal, era tida como símbolo do pecado. A lei ritual declarava imundo o leproso. Como pessoa já morta, era excluído das habitações dos homens. Tudo que tocava ficava imundo. O ar era poluído por seu hálito. Uma pessoa suspeita dessa moléstia, devia-se apresentar aos sacerdotes, que tinham de examinar e decidir o caso. Sendo declarado leproso, era separado da família, isolado da congregação de Israel, e condenado a conviver unicamente com os aflitos de idêntico mal. A lei era inflexível em suas exigências. Os próprios reis e principais não estavam isentos. Um rei atacado dessa terrível moléstia, tinha de renunciar ao cetro e fugir da sociedade.

Separado de amigos e parentes, devia o leproso sofrer a maldição de sua enfermidade. Era obrigado a publicar a própria desgraça, a rasgar os vestidos, a fazer soar o alarme, advertindo todos para fugirem de sua contaminadora presença. O grito “impuro! impuro!” soltado em lamentosos tons pelo pobre exilado, era um sinal ouvido com temor e aversão.

Na região do ministério de Cristo, havia muitos desses sofredores, e as novas de Sua obra chegaram até eles, suscitando um lampejo de esperança. Mas desde os dias do profeta Eliseu, nunca se ouvira falar de coisa tal como a cura de uma pessoa atacada dessa moléstia. Não ousavam esperar que Jesus fizesse em seu benefício aquilo que nunca realizara por homem algum. Houve, entretanto, alguém em cujo coração a fé começou a brotar. Mas não sabia como se aproximar de Jesus. Excluído como estava do contato dos semelhantes, como se haveria de apresentar ao Médico? E cogitou se Cristo o curaria a ele. Deter-Se-ia para atender a uma pessoa que se julgava estar sofrendo sob o juízo de Deus? Não haveria de, à semelhança dos fariseus, e mesmo dos médicos, proferir sobre ele uma maldição, advertindo-o a que fugisse da morada dos homens? Pensava em tudo quanto lhe fora dito de Jesus. Nenhum dos que Lhe buscavam o auxílio fora repelido. O infeliz decidiu procurar o Salvador. Embora excluído das cidades, podia ser que acontecesse atravessar-Lhe o caminho em algum atalho das montanhas, ou encontrá-Lo enquanto ensinava fora das cidades. Grandes eram as dificuldades, mas constituía essa sua única esperança.

O leproso é guiado ao Salvador. Jesus está ensinando à margem do lago, e o povo reunido ao Seu redor. Ficando a distância, apanha algumas palavras dos lábios de Jesus. Observa-O a colocar as mãos sobre os enfermos. Vê o coxo, o cego, o paralítico e os que estavam a perecer de várias moléstias, erguerem-se com saúde, louvando a Deus por seu livramento. A fé se lhe fortalece no coração. Aproxima-se mais e mais ainda da multidão reunida. As restrições que lhe são impostas, a segurança do povo e o temor com que todos o olhavam, tudo foi esquecido. Pensa tão-somente na bendita esperança da cura.

Esse doente oferece um repugnante espetáculo. A moléstia fizera terríveis incursões, e é horrível ver-se-lhe o corpo em decomposição. Ao avistá-lo, o povo recua apavorado. Comprimem-se uns contra os outros, a fim de escapar-lhe ao contato. Alguns tentam impedi-lo de se aproximar de Jesus, mas em vão. Ele não os vê nem os ouve. Suas expressões de repugnância não o atingem. Vê unicamente o Filho de Deus. Não escuta senão a voz que comunica vida ao moribundo. Avançando para Jesus, atira-se-Lhe aos pés com o grito: “Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo.”

Jesus replicou: “Quero: sê limpo”. Mateus 8:2, 3. E pôs-lhe a mão em cima. Operou-se imediatamente uma transformação no leproso. Sua carne tornou-se sã, os nervos sensíveis, firmes os músculos. A aspereza e escamosidade peculiares à lepra, desapareceram, sendo substituídas por suave colorido, como o da pele de uma saudável criança.

Jesus recomendou ao homem que não divulgasse a obra que realizara, mas fosse imediatamente apresentar-se com uma oferta no templo. Essa oferta não podia ser aceita enquanto os sacerdotes não examinassem o homem, declarando-o inteiramente livre da moléstia. Embora de má vontade para realizar esse serviço, não se podiam eximir ao exame e decisão do caso.

As palavras da Escritura mostram com que força Cristo advertiu o homem quanto à necessidade de silêncio e ação pronta. “E advertindo-o severamente, logo o despediu. E disse-lhe: Olha, não digas nada a ninguém; porém vai, mostra-te ao sacerdote, e oferece pela tua purificação o que Moisés determinou, para lhes servir de testemunho”. Mateus 1:43, 44. Houvessem os sacerdotes sabido os fatos concernentes à cura do leproso, e seu ódio para com Cristo os teria levado a dar sentença desonesta. Jesus queria que o homem se apresentasse no templo antes que qualquer rumor acerca do milagre chegasse aos ouvidos deles. Assim se poderia obter uma decisão imparcial, sendo ao leproso purificado permitido mais uma vez unir-se com a família e os amigos.

Tinha Cristo ainda outros intuitos ao recomendar silêncio ao homem. O Salvador sabia que Seus inimigos estavam sempre buscando limitar-Lhe a obra, e desviar dEle o povo. Sabia que, se a cura do leproso fosse propalada, outras vítimas dessa terrível doença haviam de aglomerar-se em volta dEle, e então ergueriam o brado de que o povo se contaminaria pelo contato com elas. Muitos dos leprosos não empregariam o dom da saúde de modo a torná-la uma bênção para si mesmos e para outros. E, atraindo a Si os leprosos, acusá-Lo-iam de estar violando as restrições da lei ritual. E assim seria prejudicada Sua obra quanto à pregação do evangelho.

O acontecimento justificava a advertência de Cristo. Uma multidão de gente presenciara a cura do leproso, e estavam ansiosos de ouvir a decisão dos sacerdotes. Quando o homem voltou para os amigos, grande foi o despertamento. Não obstante a precaução de Jesus, o homem não fez esforço nenhum para ocultar a cura. Na verdade, impossível teria sido escondê-la, mas o leproso divulgou-a. Imaginando que era somente a modéstia de Jesus que ditara essa restrição, saiu proclamando o poder desse grande Restaurador. Não compreendia que toda manifestação dessa espécie tornava os sacerdotes e anciãos mais decididos a eliminar a Jesus. O homem restaurado sentia ser deveras preciosa a graça da saúde. Regozijou-se no vigor da varonilidade, e no ser restituído à família e à sociedade, e julgava ser impossível abster-se de dar glória ao Médico que o curara. Esse seu ato, porém, de divulgar o caso, deu em resultado prejuízo para a obra do Salvador. Fez com que o povo se aglomerasse em torno dEle em tal multidão, que foi forçado a interromper por algum tempo Suas atividades.

Todo ato do ministério de Cristo era de vasto alcance em seus desígnios. Envolvia mais do que o ato em si mesmo parecia encerrar. Foi o que se deu no caso do leproso. Ao passo que Jesus ministrava a todos quantos iam ter com Ele, anelava beneficiar os que não iam. Ao mesmo tempo que atraía os gentios e os samaritanos, almejava chegar aos sacerdotes e aos mestres excluídos pelos preconceitos e tradições. Não deixou de tentar meio algum pelo qual pudessem ser alcançados. Ao enviar o leproso aos sacerdotes, proporcionou-lhes o testemunho calculado a desarmar-lhes os preconceitos.

Haviam os fariseus declarado que os ensinos de Cristo eram contrários à lei dada por Deus mediante Moisés; mas Suas instruções ao leproso purificado, de apresentar uma oferta segundo a lei, refutavam essa acusação. Era suficiente testemunho para todos quantos estivessem dispostos a convencer-se.

Os dirigentes, em Jerusalém, tinham enviado espias a fim de procurar qualquer pretexto para matar a Cristo. Ele respondeu apresentando-lhes uma prova de Seu amor pela humanidade, Seu respeito pela lei, e o poder que tinha de libertar do pecado e da morte. Assim lhes deu testemunho: “Deram-Me mal pelo bem, e ódio pelo Meu amor”. Salmos 109:5. Aquele que deu no monte o preceito: “Amai os vossos inimigos” (Mateus 5:44), exemplificou Ele próprio o princípio, não tornando “mal por mal, ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo”. 1 Pedro 3:9.

Os mesmos sacerdotes que haviam condenado o leproso ao banimento, atestaram-lhe a cura. Essa sentença, proferida e registrada publicamente, constituía firme testemunho em favor de Cristo. E ao ser o homem reintegrado, sadio, na congregação de Israel, sob a afirmação dos próprios sacerdotes de que não havia nele vestígio da moléstia, tornou-se vivo testemunho de seu Benfeitor. Apresentou alegremente a oferta, e engrandeceu o nome de Jesus. Os sacerdotes estavam convencidos do divino poder do Salvador. Foi-lhes dada a oportunidade de conhecer a verdade e serem beneficiados pela luz. Rejeitada, ela passaria, para nunca mais voltar. Muitos rejeitaram a luz; ela não foi, todavia, dada em vão. Foram tocados muitos corações que, por algum tempo, não deram disso sinal. Durante a vida do Salvador, Sua missão parecia despertar pouca correspondência de amor da parte dos sacerdotes e mestres; depois de Sua ascensão, porém, “grande parte dos sacerdotes obedecia à fé”. Atos dos Apóstolos 6:7.

A obra de Cristo em purificar o leproso de sua terrível doença, é uma ilustração de Sua obra em libertar a pessoa do pecado. O homem que foi ter com Jesus estava cheio de lepra. O mortal veneno da moléstia penetrara-lhe todo o corpo. Os discípulos procuraram impedir o Mestre de o tocar; pois aquele que tocava num leproso, tornava-se por sua vez imundo. Pondo a mão sobre o doente, porém, Jesus não sofreu nenhuma contaminação. Seu contato comunicou poder vitalizante. Foi purificada a lepra. O mesmo se dá quanto à lepra do pecado — profundamente arraigada, mortal e impossível de ser purificada por poder humano. “Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco. Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, e inchaços, e chagas podres”. Isaías 1:5, 6. Mas Jesus, vindo habitar na humanidade, não recebe nenhuma contaminação. Sua presença tem virtude que cura o pecador. Quem quer que Lhe caia de joelhos aos pés, dizendo com fé: “Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo”, ouvirá a resposta: “Quero: sê limpo”. Mateus 8:2, 3.

Em alguns casos de cura, Jesus não concedeu imediatamente a bênção buscada. No caso da lepra, todavia, tão depressa foi feito o apelo, seguiu-se a promessa. Quando pedimos bênçãos terrestres, a resposta a nossa oração talvez seja retardada, ou Deus nos dê outra coisa que não aquilo que pedimos; não assim, porém, quando pedimos livramento do pecado. É Sua vontade limpar-nos dele, tornar-nos Seus filhos, e habilitar-nos a viver uma vida santa. Cristo “Se deu a Si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade de Deus nosso Pai”. Gálatas 1:4. E “esta é a confiança que temos nEle, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a Sua vontade, Ele nos ouve. E, se sabemos que nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que alcançamos as petições que Lhe fizemos”. 1 João 5:14, 15. “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo, para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça”. 1 João 1:9.

Na cura do paralítico de Cafarnaum, Cristo tornou a ensinar a mesma verdade. Foi para manifestar Seu poder de perdoar pecados, que o milagre se realizou. E a cura do paralítico também ilustra outras preciosas verdades. É plena de esperança e animação, e do ponto de vista de sua relação para com os astutos fariseus, encerra igualmente uma advertência.

Como o leproso, esse paralítico perdera toda a esperança de restabelecimento. Sua doença era resultado de uma vida pecaminosa, e seus sofrimentos amargurados pelo remorso. Por muito tempo apelara para os fariseus e os doutores, esperando alívio do sofrimento mental e físico. Mas eles friamente o declaravam incurável, abandonando-o à ira de Deus. Os fariseus consideravam a doença como testemunho do desagrado divino, e mantinham-se a distância do enfermo e do necessitado. Todavia, muitas vezes esses próprios que se exaltavam como santos, eram mais culpados que as vítimas que condenavam.

O paralítico achava-se de todo impotente e, não vendo nenhuma perspectiva de auxílio de qualquer lado, caíra no desespero. Ouvira então falar das maravilhosas obras de Jesus. Foi-lhe dito que outros, tão pecadores e desamparados como ele, haviam sido curados; até mesmo leprosos tinham sido purificados. E os amigos que relatavam essas coisas animavam-no a crer que também ele poderia ser curado, caso fosse conduzido a Jesus. Desfaleceu-se-lhe, no entanto, a esperança ao lembrar-se da maneira por que lhe sobreviera a enfermidade. Temeu que o imaculado médico não o tolerasse em Sua presença.

Não era, entretanto, o restabelecimento físico, que desejava tanto, mas o alívio ao fardo do pecado. Se pudesse ver a Jesus, e receber a certeza do perdão e a paz com o Céu, estaria contente de viver ou morrer, segundo a vontade de Deus. O grito do moribundo, era: Oh! se eu pudesse chegar à Sua presença! Não havia tempo a perder; já sua consumida carne começava a mostrar indícios de decomposição. Rogou aos amigos que o conduzissem em seu leito a Jesus, o que empreenderam de boa vontade. Tão compacta, porém, era a multidão que se apinhara dentro e nos arredores da casa em que Se achava o Salvador, que impossível foi ao doente e aos amigos ir até Ele, ou mesmo chegar-Lhe ao alcance da voz.

Jesus estava ensinando na casa de Pedro. Segundo seu costume, os discípulos sentaram-se-Lhe bem próximo, em torno, e “estavam ali assentados fariseus e doutores da lei, que tinham vindo de todas as aldeias da Galiléia e da Judéia, e de Jerusalém”. Estes tinham ido como espias, buscando motivo de acusação contra Jesus. Além desses oficiais, apinhava-se a multidão mista — os sinceros, os reverentes, os curiosos e os incrédulos. Nacionalidades diversas, e todos os graus sociais se achavam representados. “E a virtude do Senhor estava com Ele para curar.” O Espírito de vida pairava por sobre a assembléia, mas fariseus e doutores não Lhe discerniam a presença. Não experimentavam nenhum sentimento de necessidade, e a cura não era para eles. “Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos”. Lucas 1:53.

Repetidamente procuraram os condutores do paralítico abrir caminho por entre a multidão, mas em vão. O enfermo olhava em derredor de si com indizível angústia. Quando o tão ansiado socorro tão perto estava, como poderia renunciar à esperança? Por sugestão sua, os amigos o levaram ao telhado e, abrindo um buraco no teto, baixaram-no aos pés de Jesus. O discurso foi interrompido. O Salvador contemplou o doloroso semblante, e viu os suplicantes olhos fixos nEle. Compreendeu; tinha atraído a Si aquele perplexo e duvidoso espírito. Enquanto o paralítico ainda se achava em casa, o Salvador infundira-lhe convicção na consciência. Quando se arrependera de seus pecados, e crera no poder de Jesus para o curar, as vitalizantes misericórdias do Salvador haviam começado a beneficiar-lhe o anelante coração. Jesus observara o primeiro lampejo de fé transformar-se em crença de que Ele era o único auxílio do pecador, e vira-o tornar-se mais e mais forte a cada novo esforço para chegar a Sua presença.

Agora, em palavras que soaram qual música aos ouvidos do enfermo, o Salvador disse: “Filho, tem bom ânimo; perdoados te são os teus pecados”. Mateus 9:2.

O fardo de desespero cai da mente do doente; repousa-lhe no espírito a paz do perdão, brilhando-lhe no semblante. O sofrimento físico desaparece, e todo o seu ser é transformado. O impotente paralítico estava curados perdoado o culpado pecador!

Em fé singela aceitou as palavras de Jesus como o favor de uma nova vida. Não insiste em nenhum outro pedido, mas permanece em jubiloso silêncio, demasiado feliz para se exprimir em palavras. A luz do Céu irradiava-lhe da fisionomia, e o povo contemplava a cena com assombro.

Os rabis haviam esperado ansiosamente a ver que faria Jesus com esse caso. Lembravam-se de como o homem apelara para eles, em busca de auxílio, e lhe tinham recusado esperança ou simpatia. Não satisfeitos com isso, haviam declarado que estava sofrendo a maldição de Deus por causa de seus pecados. Tudo isso lhes acudiu novamente à lembrança ao verem o enfermo diante de si. Observaram o interesse com que todos contemplavam a cena, e experimentaram terrível temor de perder a influência sobre o povo.

Esses dignitários não trocaram palavras, mas olhando-se leram no rosto uns dos outros o mesmo pensamento de que alguma coisa se devia fazer para deter a onda dos sentimentos. Jesus declarara que os pecados do paralítico estavam perdoados. Os fariseus tomaram essas palavras como blasfêmia, e conceberam a idéia de apresentá-las como pecado digno de morte. Disseram em seu coração: “Ele blasfema; quem pode perdoar pecados senão só Deus?” Mateus 9:3.

Fixando sobre eles o olhar, sob o qual se acovardaram e recuaram, disse Jesus: “Por que pensais mal em vossos corações? Pois qual é mais fácil dizer: Perdoados te são os pecados; ou dizer: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na Terra autoridade para perdoar pecados”, disse então ao paralítico: “Levanta-te, toma a tua cama, e vai para tua casa”. Mateus 9:4-6.

Então aquele que fora levado a Cristo num leito, pôs-se de pé num salto, com a elasticidade e o vigor da juventude. A vitalizante seiva agita-se-lhe nas veias. Cada órgão de seu corpo rompe em súbita atividade. As cores da saúde sucedem à palidez da morte próxima. “E levantou-se, e, tomando logo o leito, saiu em presença de todos, de sorte que todos se admiraram e glorificaram a Deus, dizendo: Nunca tal vimos”. Marcos 2:12.

Oh! maravilhoso amor de Cristo, inclinando-se para curar o culpado e o aflito! A Divindade compadecendo-Se dos males da sofredora humanidade, e suavizando-os! Oh! maravilhoso poder assim manifestado aos olhos dos filhos dos homens! Quem pode duvidar da mensagem de salvação? Quem pode menosprezar as misericórdias de tão compassivo Redentor?

Nada menos que poder criador era necessário para restituir a saúde àquele decadente corpo. A mesma voz que comunicou vida ao homem criado do pó da terra, transmitiu-a ao moribundo paralítico. E o mesmo poder que dera vida ao corpo, renovara-lhe o coração. Aquele que, na criação, “falou, e tudo se fez”, “mandou, e logo tudo apareceu” (Salmos 33:9) comunicara vida à pessoa morta em ofensas e pecados. A cura do corpo era um testemunho do poder que renovara o coração. Cristo pediu ao paralítico que se erguesse e andasse, “para que saibais”, disse Ele, “que o Filho do homem tem na Terra poder para perdoar pecados”. Marcos 2:10.

O paralítico encontrou em Cristo cura tanto para o corpo como para o espírito. A cura espiritual foi seguida da restauração física. Essa lição não devia ser desatendida. Existem hoje milhares de vítimas de sofrimentos físicos, os quais, como o paralítico, estão anelando a mensagem: “Perdoados estão os teus pecados.” O fardo do pecado, com seu desassossego e insatisfeitos desejos, é o fundamento de suas doenças. Não podem encontrar alívio, enquanto não forem ter com o grande Médico. A paz que unicamente Ele pode dar, comunicar vigor à mente e saúde ao corpo.

Jesus veio para “desfazer as obras do diabo”. 1 João 3:8. “NEle estava a vida” (João 1:4) e Ele diz: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância”. João 10:10. Jesus é “espírito vivificante”. 1 Coríntios 15:45. E possui ainda o mesmo poder vitalizante que tinha quando na Terra curava o doente, e assegurava o perdão ao pecador. “Perdoa todas as tuas iniqüidades”, “sara todas as tuas enfermidades”. Salmos 103:3.

O efeito produzido sobre o povo pela cura do paralítico, foi como se o Céu se houvesse aberto, revelando as glórias do mundo melhor. Ao passar o homem curado por entre a multidão, bendizendo a Deus a cada passo, e levando sua carga como se fosse uma pena, o povo recuava para lhe dar passagem e presa de assombro fitavam-no, falando entre si brandamente em segredo: “Hoje vimos prodígios.”

Os fariseus estavam mudos de espanto, e esmagados pela derrota. Viram que não havia aí lugar para seu ciúme despertar a multidão. A maravilhosa obra vista no homem que fora entregue à ira de Deus impressionara por tal forma o povo que naquele momento os rabis foram esquecidos. Viram que Cristo possuía um poder que tinham atribuído unicamente a Deus; todavia, a suave dignidade de Sua atitude apresentava assinalado contraste com o porte altivo deles. Ficaram desconcertados e confundidos, reconhecendo, mas não confessando, a presença de um Ser superior. Quanto mais forte era a evidência de que Jesus tinha poder na Terra para perdoar pecados, tanto mais firmemente se entrincheiravam na incredulidade. Da casa de Pedro, onde tinham assistido ao restabelecimento do paralítico por Sua palavra, saíram para formular novos planos, a fim de reduzir ao silêncio o Filho de Deus.

A enfermidade física, se bem que maligna e fundamente arraigada, foi afastada pelo poder de Cristo; a enfermidade espiritual, porém, firmou o império sobre os que fecharam os olhos à luz. A lepra e a paralisia não eram tão terríveis quanto a hipocrisia e a incredulidade.

Na casa do paralítico restaurado foi grande o regozijo quando ele voltou para a família, conduzindo com facilidade o leito em que, pouco antes, fora vagarosamente levado de perto deles. Reuniram-se-lhe em torno com lágrimas de alegria, mal ousando crer no que seus olhos viam. Ali estava ele em sua presença, no pleno vigor da varonilidade. Os braços que tinham visto sem vida, estavam prontos a obedecer imediatamente a sua vontade. A carne, contraída e arroxeada, achava-se agora rosada e fresca. Caminhava com passo firme e desembaraçado. A alegria e a esperança achavam-se-lhe impressas em cada linha do rosto; e uma expressão de pureza e paz havia substituído os vestígios do pecado e do sofrimento. Daquele lar ascenderam jubilosas ações de graças, e Deus foi glorificado por meio do Filho, que restituíra a esperança ao abatido e força ao aflito. Esse homem e sua família estavam dispostos a dar a vida por Jesus. Nenhuma dúvida lhes enfraquecia a fé, nenhuma incredulidade lhes maculava a lealdade para com Aquele que lhes levara luz ao ensombrado lar.

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